Lyrics double CD Bamboleamos no mundo

Contents: CD 1 | CD 2

CD 1

I Uma só divina linha

One divine line

A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca,

The faint and remote Voice that’s now the Absolute Voice, the Mouthless Voice,

Chama por mim, chama por mim, chama por mim ...

Calling me, calling me, calling me...

Vem surdamente, como se fosse suprimida e se ouvisse,
Longinquamente, como se estivesse soando noutro lugar e aqui não se pudesse ouvir,
Como um soluço abafado, uma luz que se apaga, um hálito silencioso,
De nenhum lado do espaço, de nenhum local no tempo,
O grito eterno e noturno, o sopro fundo e confuso:

It comes faintly, as if muffled but still audible,
From far away, as if it sounded elsewhere and couldn’t be heard here,
Like a stifled sob, a snuffed flame, a silent breath,
From no corner in space, from no place in time,
The eternal cry of night, the deep and confused murmur:

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

Newton’s binomial theory is as beautiful as the Venus of Milo.
The fact is, precious few people care.

óóóó---óóóóóóóóó--- óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora)

óóóó-óóóóóóóóó-óóóóóóóóóóóóóóó
(The wind out there)

Vem, noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Come, ancient and unchanging Night,
Queen Night who was born dethroned,
Night inwardly equal to silence, Night
With sequin-stars that flicker
In your dress fringed by Infinity.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,

Come faintly,
Come softly,
Come alone, solemn, with hands hanging
All sounds sound different
When you come.
All voices hush when you enter.
No one sees you enter.
No one knows when you have entered
Except of a sudden, when everything starts to withdraw,

Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul

When everything loses it’s edges and colors,
And high above, in the still bluish sky,

Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.

As a distinct crescent, a white circle, or just a sliver of new light,

A lua começa a ser real.

The moon begins to be real.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,

Come, silent and ecstatic Night,
Come lull us,
Come cuddle us,
Kiss us softly on the forehead,

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,

Come ever so solemnly,
Solemn and full
Of a secret desire to weep,
Perhaps because the soul is vast and life small,

E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

And none of our gestures ever leaves our body,
And we can reach only as far as our arm reaches,
And can see only as far as our sight extends.

Vem, dolorosa,

Come, ever sorrowful,

Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.

Come out from the depths,
Of the pallid horizon,
Come pull me out
Of the soil of anxiety and barrenness
Where I thrive.

Vem, cuidadosa,

Come, ever considerate,

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Make me human, O night, make me helpful and brotherly.
Only humanitarianly can one live.
Only by loving mankind, actions, the banality of jobs,
Only in this way - alas! - only in this way can one live.
Only this way, O night, and I can never be this way!

Por isso sê para mim materna, ó noite tranquila...
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, ó noite, sobre a minha fronte...
Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.

So be motherly to me, O tranquil night...
You who don’t exist, who are only the absence of light,
You who aren’t a thing, a place, an essence or a life,
Come to me, O night, reach out your hands,
And be coolness and relief, O night, on my forehead...
Come, night, and snuff me out, come and drown me in yourself.

II Addiamento

Deferral

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.

The day after tomorrow, not until the day after tomorrow...
I’ll spend tomorrow thinking about the day after tomorrow,
And then maybe, we’ll see, but not today...
Today is out of the question. Today I can’t

A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,

The confused persistence of my objective subjectivity,
The fatigue of my real, intermittently appearing life,

O cansaço antecipado e infinito,

The anticipated and infinite weariness,

Um cansaço de mundos /.............../
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

A multi-world weariness ...
This species of soul ...
Not until the day after tomorrow ...
Today I want to get ready,
I want to get ready to think tomorrow about the day after ...
That will be the decisive one.
I’ve already planned it out; but no, today I’m not planning anything.
Tomorrow is the day for plans.
Tomorrow I’ll sit at my desk to conquer the world,
But I’ll only conquer the world the day after tomorrow ...
I feel like crying,
I suddenly feel, deep within, like crying.

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...

No, don’t try find out any more, it’s a secret, I’m not telling.
Not until the day after tomorrow ...

/................................/
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,

/ ............................./
The day after tomorrow I’ll be different,
My life will triumph,

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocades por um edital...

All my real qualities of intelligence, erudition and practicality
Will be convened by an official announcement ...

Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...

But by an announcement to be made tomorrow ...
Today I want to sleep; I’ll draft announcements tomorrow ...

[Por] hoje /................../
/.................../ amanhã,
/.../depois de amanhã/........../....

For today, / ............ /
/ ............ / tomorrow,
/ ... / the day after tomorrow / ...... /

Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso
nunca ser.
Só depois amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.

Not before ...
The day after tomorrow I’ll have the public image which tomorrow
I’ll rehearse.
The day after tomorrow I’ll finally be what today
I could never be.
The day after tomorrow, not before ...
I feel tired the way a stray dog feels cold.
I feel very tired.

Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã ...

Tomorrow I’ll explain it to you, or the day after tomorrow ...
Yes, perhaps not until the day after tomorrow ...

O porvir...
Sim, o porvir...

The future ...
Yes, the future ...

 

CD 2: III Bamboleamos no mundo (We stagger through the world)

Poema de canção sobre a esperança

Poem of the Song About Hope

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios-
Os melhores lírios-
E as melhores rosas
As melhores rosas
E os melhores lírios-

Give me lilies, lilies,
and roses too.
Give me lilies, lilies,
and roses too.
But if you have no lilies
Or roses to give me,
At least have the desire
To give me lilies
and roses too.
The desire’s enough,
Your desire, if you have it,
To give me lilies
And roses too,
And I’ll have lilies -
The best lilies -
And the best roses
The best roses
and the best lilies

Sem receber nada,
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também

Without receiving anything
Except the gift
Of your desire
To give me lilies
And roses too.

Coroai-me de rosas

Crown me with roses

Coroai-me em verdade
De rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

Crown me really
With roses -
Roses which burn out
On a forehead burning
So soon out!
Crown me with roses
And with fleeting leafage.
That will do.

Não estou pensando em nada

I’ve been thinking about nothing at all

Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,

I’ve been thinking about nothing at all,
And this central thing, which isn’t anything,
Is pleasant to me like the evening air,
Fresh in contrast to the hot summer days.

Não estou pensando em nada, e que bom!

I’ve been thinking about nothing at all, and how lucky!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.

To think about nothing
Is to fully possess the soul.

Pensar em nada
É viver ìntimamente
O fluxo e o refluxo da vida...

To think about nothing
Is to intimately live
Life’s ebb and flow ...

Não estou pensando em nada.
Só, como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...

I’ve been thinking about nothing at all.
Only, it’s as if I’d wrenched a muscle,
I feel a pain in my back, or on one side of it,
there’s a bad taste in the mouth of my soul,
Because, after all,
I’ve been thinking about nothing,
But really, nothing,
nothing ...

Estou tonto

I’m dizzy

Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantaria dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.

Dizzy from too much sleeping or too much thinking
Or too much of both.
All I know is I’m dizzy,
And I’m not sure if I should get up from my chair
Or how I would get up from it.
I’m dizzy - let’s leave it at that.

Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,

What life
Did I make out of life?
None.
It all happened in the cracks,
It was all approximations,

Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada...
É por isso que estou tonto...

All a function of the abnormal and the absurd,
All essentially nothing ...
That’s why I’m dizzy.

Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto...
Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim o meu nome,
sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.

Now
Every morning I wake up
Dizzy ...
Yes, literally dizzy ...
Unsure of my own name,
unsure of where I am,
Unsure of what I’ve been,
Unsure of everything.

Mas se isto é assim é assim.
Deixo-me estar na cadeira.
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto...

But if that’s how it is, that’s how it is.
So I remain in the chair.
I’m dizzy.
That’s right, I’m dizzy.
I remain seated
And dizzy.
Yes, dizzy.
Dizzy ...
Dizzy ...

Insónia

Insomnia

Não durmo,...

I can’t sleep, ...

Não durmo, nem espero dormir.
Não durmo,...

I can’t sleep, and I don’t expect to sleep.
I can’t sleep, ...

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Insomnia vast as the stars awaits me,
And a world-wide, useless yawn.

Não durmo,...

I can’t sleep, ...

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,

I can’t sleep, here I lie, a corpse awake, feeling,
And my feeling is a empty thought.
They rush through my head in a jumble, things that happened to me
They rush through my head in a jumble, things that did’t happen to me
They rush through my head in a jumble, things without meaning,

Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Outside, there’s the silence of this whole thing.
A great appalling silence at any other time,
At any other time when I might be able to feel.

Não durmo,......

I can’t sleep, ...

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,

I’m tired, I can’t sleep, I’m feeling, and I don’t know what to feel about it.
I’m a sensation without a corresponding person,
An abstraction of self-consciousness with nothing inside

Salvo o necessário para sentir consciência¬,
Salvo - sei lá salvo o quê...

Except what’s necessary to feel the consciousness,
Except - I have no idea except what!

Não durmo,...
Não durmo,...
Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

I can’t sleep, ...
I can’t sleep, ...
I can’t sleep. I can’t sleep. I can’t sleep.
Vast sleepiness throughout body and mind, covering my eyes, all through my soul!
The only thing not sleeping is my inability to sleep!

...Que horas são? Não sei.

... What time is it? I don’t know.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A humanidade esquece, sim, a humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Absolute night, absolute quiet, outside.
All Nature at peace.
Humanity rests to forget its sorrow.
Exactly.
Humanity forgets its joys and sorrows.
That’s what they say.
Humanity forgets, yes, humanity forgets,
But even awake, Humanity forgets.
Exactly. But I can’t sleep.

Na noite terrível

In the terrible night

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,

In the terrible night, natural substance of all nights,
In the night of insomnia, natural substance of all my nights,

Meu Deus
Não posso pensar / nem posso sonhar...
me arrependo / me culpo
que fiz / que podia ter feito
não fui / não fiz / nem sequer sonhei;
não disse não / não disse sim
sim em vez de não / não em vez de sim
só agora vejo o que não disse /
só agora / só agora vejo / claramente vejo
esquerda / direita
outro
percebo / irreparável / cadáver!
frases /
Claras, inevitáveis, naturais /
oda resolvida /
me dói
me esqueci de sonhar
terrível / angústia / frio
invisível
é morto
o melhor de mim

My God
I can’t think / I can’t dream...
I regret / I blame myself
what I’ve done / what I might have done
I did not go / I did not / I did not even dream;
I did not say no / I did not say yes
yes instead of no / no instead of yes
only now I see what I didn’t say /
only now / only now I see / Clearly I see
left / right
different
I perceive / irreparably / corpse!
phrases
Clear, inevitable, natural /
everything resolved /
it hurts /
I forgot to dream
terrible / anguish / cold
invisible
is dead
the best of me

Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado - esse é que é o cadáver!

I remember, awake in tossing drowsiness,
I remember what I’ve done and what I might have done in life.
I remember, and an anguish
Spreads all through me like a physical chill or a fear,
The irreparable of my past - this is the real corpse.

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro -
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

If at a certain point
I had turned to the left instead of to the right;
If at a certain moment
I had said yes instead of no, or no instead of yes;
If in a certain conversation
I had hit on the phrases which only now, in this half-sleep, I
elaborate - If all this had been so,
I would be different today, and perhaps the whole universe
Would be insensibly brought to be different as well.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

But I did not turn in the direction which is irreparably lost,
Not turn or even think of turning, and only now I perceive it;
But I did not say no or say yes, and only now see what I didn’t say;
But the phrases I failed to say surge up in me at present, all of them,
Clear, inevitable, natural,
The conversation gathered in conclusively,
The whole matter resolved ...
But only now what never was, nor indeed shall be, hurts.

Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?

Maybe I could bring what I have dreamed to some other world,
But could I bring to another world the things I forgot to dream?

Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos, Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca Como uma verdade de que não partilho

These, yes, the dreams going begging, are the real corpse. I bury it in my heart for ever, for all time, for all universes, In this night when I can’t sleep and peace encircles me Like a truth which I’ve no share in,

E lá fora o luar, como a esperança que não tenho,
é invisível pra mim.

And the moonlight outside, like a hope I do not have,
is invisible to me.

Ode Marítima / Maritime Ode (page 190-191) - Dois excertos de odes / Excerpts from two odes (page 161-164) - Estou tonto / I’m dizzy
from: Fernando Pessoa - A Little Larger Than the Entire Universe - Selected poems - Penguin Classics, translation Richard Zenith

Ode Marítima / Maritime Ode (page 126) - O binómio de Newton / Newton’s binomial theory - Na noite terrível / In the terrible night - Coroai-me de rosas / Crown me with roses
from: Fernando Pessoa - Selected Poems - 1982 - Penguin books, translation Jonathan Griffin

Passagem das horas / Time’s passage /(page 156-157) - Addiamento / Deferral - Não estou pensando em nada / I’ve been thinking about nothing at all,
from: Fernando Pessoa & Co.- Selected Poems - 1998 - Grove Press, translation Richard Zenith

Poema de canção sobre a esperança / Poem of the Song About Hope - Insónia / Insomnia
from: Collected later poems of Álvaro de Campos - 2009 - Shearsman books, translation Chris Daniels